Hoje é dia de me despedir. Apetece-me. Simplesmente me apetece dizer adeus.
Preciso sair deste círculo que me perturba a mente, o corpo, a Vida. Tudo é tão simples, mas o espírito rebelde inerente ao ser-se humano complica demais. Para quê tanta insanidade? Porquê tanto medo?
A Vida é muito mais que 'isto'... Olho em volta e vejo que tanto tempo perdi em preocupações desnecessárias, mas não consigo abandonar tudo. (In)Felizmente sinto. E ficaria mal aos olhos dos outros. A sociedade não permite que eu seja eu ou aquele que eu bem entender. A sociedade obriga-me a ser quem ela quer que eu seja. Preciso abandonar tudo. Preciso sair deste labirinto ruidoso. Quero paz! Quero calma! Quero tolerância! Vida! A Vida que eu sonhei.
Tantos sonhos por água abaixo. Tantos são os sonhos, os desejos, as vontades que foram alterados. Ou porque mudei de ideias ou porque a sociedade me mostrou que não seriam os mais corretos. Porquê? Quem se atreve a vir alterar quem sou e o que quero? Mas a culpa é minha, como pude e posso eu permitir tal coisa? Esta é a questão, este é o dilema mais complexo de todos os que se deixam influenciar mesmo sem ter dado permissão.
A tal história de deves dar o exemplo faz parte do leque de influências inerente à sociedade e que tanto nos persegue com o mais alto nível de opressões diretas ou indiretas. Quantas vezes se
ouve o pai dizer ao filho mais velho para dar o exemplo ao mais novo,
para dar o exemplo na escola, para não fazer má figura quando for fazer
qualquer coisa de muito ou pouco importante. Esta história cansa-me.
Estou cansada de tantos exemplos, de tantas regras, de tantas palavras
gastas à toa. Será que não é possível sermos livres e agirmos da forma
como bem entendemos? Sei que a resposta é obviamente negativa.
Iríamos entrar num campo de opiniões tão diversas que seriam capazes de
chocar suscetibilidades.
Mas a minha posição não é de todo descabida: sugiro apenas que sejamos livres de viver em paz connosco próprios. Isto significaria a sociedade deixar de interferir, pelo menos em 75%, nas nossas decisões, nas nossas vontades, nos nossos sonhos.

Não quero ver a Vida de um jeito tão sério, quero aproveitá-la como bem entender, ao meu ritmo; quero ser sábia mas simultaneamente inocente; quero poder fazer disparates; quero fazer remendes; quero ensinar, mas quero muito aprender sem ter medo de o querer; quero poder decidir se me apetece ou não; quero olhar para ti, para mim, para o Mundo e poder ser eu própria, umas vezes sorrindo outras vezes chorando. Mas ser eu. E tu seres tu.
RN